Por Alda Inacio
Quem lucra com o trabalho dos brasileiros no exterior?
Texto publicado no Diário da Manhã de Goiásem 13/05/2009
No início do ano de 1971, quando eu migrei do Rio Grande do Sul para São Paulo, outros já faziam esta rota há muito tempo, eu apenas segui um caminho que atraia pessoas dos quatro cantos do Brasil. São Paulo, tanto quanto Brasília, era o ponto de encontro de sulistas, nordestinos e outros que ali buscavam a tão desejada melhora de vida.
O que observo nestes últimos 10 anos é a mudança de rota de quem procura construir um futuro melhor. Brasília passou a ser rota de migração de ricos, e São Paulo, que continua a receber gente do Brasil inteiro, não o faz com a febre de 30 anos passados. As razões não são a falta de trabalho nestas capitais, a falta de acomodação, nem tampouco a desistência de pessoas em concretizar o sonho de viver com um pouco mais que feijão com arroz. Os mesmos pólos industriais continuam a carecer de mão-de-obra, mas os sonhos de muitos agora são incentivados pelo exemplo de outros que partiram para mais longe, na eterna busca do Eldorado. Hoje, sonha-se com dólares e euros no lugar do real, e tanta gente deixa de lado a continuidade dos estudos, deixa de lado a família e parte para o desconhecido.
Entre estes sonhadores encontram-se quem venceu lá fora, quem voltou mais individado do que partiu e , no meio do caminho, encontram-se cidadãos nativos de outros países ditos de primeiro mundo que também sonham com a migração. Ou você pensa que somente cidadãos da América Latina têm o desejo de partir e vivenciar uma experiência fora do círculo de onde nasceram? Veja como exemplo a Bélgica. O cidadão belga, a exemplo dos brasileiros, também têm sonhos de trabalhar em outros países e, por incrível que pareça, a rota principal dos sonhadores belgas são os Estados Unidos; de cinco anos para cá, os sonhos dos belgas também incluem a Austrália e Nova Zelândia. Algumas grandes companhias belgas estão engajadas em expandir as fronteiras e abrir campo de trabalho para seus cidadãos em países longínquos. Talvez incentivados pela exportação de sua cerveja, uma das melhores do mundo. Em Sidney, o Guylian Belgian Chocolate Cafés já é o segundo na mesma cidade. Já na Nova Zelândia, fixou-se uma das maiores companhias, a Belgian Beer Café, que já conta com seis gigantescos locais nas cidades de Sidney, Melborne e Adelaide. E para se ter uma ideia do valor do investimento e importância destes locais, veja que a inauguração do último contou com a presenaça do rei Albert e da rainha Paola; foi na Nova Zelândia e se chama Blankenberg Café, inaugurado na cidade de Takapuna.
Estes estabelecimentos têm o poder de motivar acordos entre governos, um destes acordos de trabalho, feito entre Bélgica e Austrália, permite que jovens belgas até os 25 anos migrem para trabalhar durante um ano com salários de 420 euros semanais.
O que fica claro nestas buscas é a mudança de rotas ocorridas nestas últimas décadas. Muitas vezes, pensamos que somente países de terceiro mundo como o nosso têm cidadãos com interesse de migração, por falta nos próprios países de origem de condições para sobrevivência. No caso da Bélgica, 90% dos jovens têm condições de fazer uma universidade, a situação do país é estável, não haveria justificativas para tal. No entanto, a busca por um outro cenário adverso ao seu é natural no ser humano. Viajar, plantar raízes em outro lugar distante, mesmo que provisoriamente, enriquece o conhecimento, abre chances para novas amizades, cria oportunidades de melhoria de vida e faz a pessoa evoluir mentalmente.
Olhando para trás na minha vida, lembro-me das repúblicas em São Paulo, em que moravam grupos de jovens estudantes que sonhavam com um diploma, um bom emprego e um dia voltar para suas cidades de origem, muitas vezes, a mais de 1.500 quilômetros de Sampa. E hoje, quando vamos para mais de 12 horas de avião de nossas casas, poucos são os que partem para fazer uma universidade. Que pena! A meta é arrecadar dinheiro suado, sofrido, chorado, no mais curto tempo possível e depois voltar para viver o aconchego da família. A diferença está na distância, na insegurança de viver como ilegal, na falta de respeito pelo mínimo de direitos humanos que se possa querer, como férias e tantos outros inconvenientes que este tipo de mudança de rota apresenta.
Mas a maior diferença na mudança de rota de brasileiros que vão para o exterior, comparada com a ida de cidadãos do primeiro mundo, está no apoio do país de origem. No caso do Brasil, o beneficiado com o sacrifício dos brasileiros no estrangeiro é o governo brasileiro, que vê a entrada de divisas, a divulgação do Brasil lá fora e, com isto, a abertura de portas para o comércio exterior. No caso da evasão belga para a Austrália, por exemplo, é o governo belga quem cria, juntamente com grandes empresas, possibilidades de implantação de firmas no exterior, abrindo campo para acordos internacionais, para proveito dos seus cidadãos.
Por outro lado, quando vemos o principado belga sendo recebido pelo governo brasileiro, ou o Brasil sendo apupado na Bélgica, notamos um pouquinho do meu sacrifício e de milhares de outros brasileiros que tomaram a decisão de mudar a rota que está ali presente. Enfim, se é para o bem da Nação, apesar de achar que um pouco mais de empenho do governo, criando oportunidades, seja necessário. Ou devemos acreditar que por trás das aparências o governo quer mais é que o povo saia para que mais e mais divisas entrem?